Publicado por: envirotools | 6 janeiro, 2011

“As empresas não sabem ouvir, só falar”

Sempre que escuta a palavra sustentabilidade, o paulista Roberto Leite espicha o ouvido. Quer saber se estão usando o termo, segundo ele um tanto etéreo, da forma correta. Incomodado com a onda do marketing verde, Leite – jornalista por formação e blogueiro por convicção – decidiu expor na internet o ponto fraco das companhias. Criou o blog “Testanto os limites da sustentabilidade“. Usa os relatórios de sustentabilidade das empresas para armar a arapuca.

A ideia de fazer um blog para avaliar os relatórios (e, mais importante, as ações) das empresas surgiu em agosto passado. Leite lê com atenção cada página dos documentos. Elabora uma série de questionamentos para lá de contundentes. E, por fim, encaminha aos responsáveis pelo Serviço de Atendimento ao Consumidor (SAC), assessoria de imprensa ou outros canais de comunicação.

Leite tem 32 anos, é comerciante e mora na cidade de Ourinhos, no interior de São Paulo. Ligado ao tema socioambiental há mais de dez anos, diz ler tudo o que encontra sobre o assunto. Com a ajuda de um professor universitário e de internautas, ele cutuca as companhias com perguntas incisivas. Cobra dos bancos uma carteira de clientes mais responsável. Questiona as produtoras de açúcar e álcool sobre as condições de trabalho dos cortadores de cana. Exige das companhias explicações detalhadas sobre seus impactos no meio ambiente.

A função dos relatórios é mostrar aos consumidores, fornecedores e parceiros até que ponto a sustentabilidade está no cerne da empresa. Eles dizem se (e como) a companhia se preocupa com as comunidades envolvidas no negócio. Mostram quanto cada unidade de produto consome de água e energia durante a fabricação. E, mais importante, listam as metas que as empresas pretendem alcançar nos próximos anos – sempre pensando em melhorias sociais e ambientais. Na opinião de Leite, eles deixam a desejar. “Se você não tem um olhar crítico, acaba acreditando naquele monte de foto bonita”, afirma. “Tem muita empresa vendendo sacolinha de pano e se auto-intitulando sustentável”.

Abaixo, Leite fala dos piores e melhores relatórios que já cruzaram seu olhar crítico.

Época – De onde surgiu a ideia de analisar relatórios de sustentabilidade?
Roberto Leite –
A ideia surgiu em agosto de 2010. Sempre me interessei pelo tema. No entanto, ao ler os relatórios vi que o que era apresentado, em alguns casos, era dúbio, inconsistente e fraco de conteúdo. Era mais uma peça publicitária do que realmente um relatório. Aí pensei: por que não perguntar para as empresas as dúvidas que tinha com o relatório e discutir com as pessoas essas dúvidas?

Época – Quem mais participa das avaliações?
Leite – Não vejo como uma avaliação, mas como um cidadão interessado pelo tema e que, ao ler o material, tem algumas dúvidas e busca respostas. Hoje somos duas pessoas diretamente. Mas temos apoios esporádicos de pessoas que enviam comentários pelas redes sociais. Elas nos dão um norte sobre qual empresa poderíamos pesquisar.

Época – Que critérios vocês usam para fazer as análises?
Leite – Nos atemos ao texto. Somente ao que está escrito, tendo como referência, às vezes, as campanhas publicitárias que referendam os relatórios ou contradizem os dados apresentados.

Época – Num balanço geral, você tem encontrado que tipo de empresas?
Leite –
Posso dividir as empresas em duas: 1) A indústria, em sua maioria, apresenta relatórios mais sólidos. As ações de sustentabilidade estão diretamente ligadas à gestão da empresa (o negócio em si). 2) Já na grande maioria das empresas de serviços (bancos, por exemplo), as ações de sustentabilidade são dissociadas do negócio. São mais uma ação publicitária do que efetivamente algo na gestão da empresa. Vejo que algumas empresas confundem sustentabilidade com meio ambiente. Não é só isto. Noto que, em muitos casos, a sociedade está fora do processo de gestão.

Época – Na sua opinião, as empresas estão mais transparentes?
Leite –
Se compararmos com um cenário de dez anos atrás, com certeza as empresas estão mais transparentes. Mas acredito que elas têm muito a melhorar na relação com a sociedade. As organizações ainda funcionam no modelo antigo de comunicação de massa. Sabem falar muito bem, mas não sabem ouvir.

Época – As empresas atacam os pontos certos em seus relatórios?
Leite –
Em grande parte não. Poucas discutem em seus relatórios questões como a forma que suas atividades impactam na sociedade. É interessante ver que os bancos se preocupam muito com o meio ambiente, e menos com a forma de oferecer crédito de maneira justa para as pessoas. Ou então com educar a população para o uso racional do dinheiro. É fácil falar em impacto ambiental quando seu negócio dificilmente poderá ser criticado sob essa ótica. Essas jogadas ficam evidentes quando questionamos as empresas sobre ações em que elas devem realmente responder para a sociedade. Um ponto interessante que as empresas apresentam nos relatórios (e que deve ser realmente questionado) são as ditas ações de sustentabilidade divulgadas amplamente pelas empresas. E que são de custo zero para as organizações, como aquelas em que o cliente paga pelo projeto (por meio de doações). Ou aquelas em que o contribuinte paga pelo projeto (via dedução fiscal). Nesses pontos, as empresas têm de deixar claro qual a sua parte no processo. É muito fácil dizer que desenvolveu algo de bom para a sociedade quando quem botou a mão no bolso foi o cliente ou o contribuinte. Outro ponto de destaque é utilizar algo legal como responsabilidade social e ambiental. Por exemplo: o programa jovem aprendiz do governo federal (todas as empresas são obrigadas a fazer, é lei) ou uma compensação ambiental que, como o próprio nome diz, é uma compensação.

Época – Qual foi o relatório mais superficial que encontraram?
Leite – O mais fraco com certeza foi o da AMBEV. A frase que mais me assustou no relatório foi: “gerar valores econômicos para todos os nossos acionistas diretamente e para a sociedade, por meio do pagamento rigoroso de todos os impostos”. Que eu saiba, pagar impostos é obrigação de qualquer pessoa ou empresa, não? O que isso tem de tão inovador? Se for realmente importante, a empresa atesta que seus concorrentes ou demais organizações são sonegadores de impostos – e assim isso seria um diferencial para ela.

Época – E o mais consistente?
Leite – Posso citar dois. O da Natura e o da Petrobras. São relatórios muito bem escritos. E reportam bem as questões de sustentabilidade.

Época – Quais são os furos mais recorrentes nos relatórios?
Leite – De uma maneira geral, os relatórios são trabalhados por três agentes: 1) redator publicitário. 2) o cara que envia as planilhas e tabelas. 3) o diagramador. O furo é que eles não conversam para fazer o relatório. Isso fica evidente quando você lê, pois o texto publicitário é maravilhoso, as fotos são lindas. Já os gráficos e tabelas apresentam resultados pífios e inconsistentes.

Época – Você já teve problemas com alguma empresa?
Leite –
Não vejo como problema, mas dificuldade em obter a resposta. O Bradesco apagava nosso protocolo de registro das perguntas e afirmava que eu não havia feito o questionamento. Só obtivemos a resposta depois de conseguir o contato direto de um profissional responsável pela atividade dentro da empresa. Outro caso interessante foi com a Bovespa. Eles não conseguiram explicar direito como uma empresa que produz arma de guerra faz parte do seu Índice de Sustentabilidade.

Época – Qual reclamação gerou mais repercussão? Alguma empresa mudou comportamentos, produtos ou algo do tipo?
Leite – O caso de maior repercussão foi com o Santander. Depois de um longo processo na tentativa de obter a resposta do banco, eles oficialmente (via SAC) negaram uma resposta. Reportamos isso via canal do banco no Twitter. Depois de três dias, recebemos um telefonema do diretor de sustentabilidade da empresa, perguntando se era ainda possível responder. Por meio do nosso trabalho, foi detectada uma falha no processo de comunicação da empresa.

Época – Qual é o limite da sustentabilidade mais recorrente nas empresas?
Leite – O limite da sustentabilidade das empresas está em não saber ouvir, só falar. Algumas não gostam de ser questionadas. Chegam a perguntar por que queremos determinadas informações. Respondemos que o dado é público e que gostaríamos de informações adicionais. As empresas não focam no ponto certo: onde realmente seu negócio impacta na sociedade e no meio ambiente. A maioria dos relatórios é auditada por grandes empresas de consultoria contábeis (do ponto de vista financeiro, o relatório é excelente, mas de resto…) e cheio de selinhos, mas não responde o que realmente deve ser respondido. Não dizem o que a empresa oferece de bom para a sociedade e como reduz os impactos que produz.

Outro lado

Procuradas por Época, as empresas responderam o seguinte:

AMBEV

“A Ambev possui vários canais de comunicação com os mais diversos públicos em seu site. A companhia esclarece que há um fluxo para atender as demandas, uma vez que são muitas, mas todos os e-mails são devidamente respondidos. Sobre as questões do Sr. Roberto Leite, a companhia afirma que as respostas constam no Relatório de Sustentabilidade de 2008 e nas demais seções do site, mas de qualquer forma as respostas serão enviadas”.

BRADESCO

“O Bradesco sempre se preocupou com a excelência dos produtos e serviços prestados aos seus consumidores. Prova disso foi a criação do Canal Alô Bradesco, em 1985, cinco anos antes da oficialização do Código de Defesa do Consumidor. Os clientes e usuários podem registrar suas manifestações da seguinte forma:

- pelas Centrais de Atendimento SAC – 24 horas por dia, sete dias na semana. Principal contato telefônico – SAC Alô Bradesco 0800-7048383.

- Acessando o site www.bradesco.com.br, link Fale Conosco.

Temos também um novo canal de relacionamento que vem se mostrado muito eficaz: o Twitter, que também é monitorado 24 horas, sete dias por semana.

Com relação a ausência de resposta à consulta realizada no Fale Conosco (protocolo 0555347), afirmamos que em hipótese alguma qualquer manifestação é desconsiderada ou eliminada dos sistemas do Bradesco. O fato em questão é um problema técnico isolado.

Esclarecemos ainda que para atendermos ao Decreto 6523, o Bradesco trabalha atualmente com dois sistemas distintos, um para atender o SAC (Central de Atendimento) e outro para atender as manifestações recebidas pela Internet, o que explica a atendente não ter localizado a manifestação em referência. O Bradesco tem o compromisso de melhoria contínua de seus processos, portanto encontra-se em desenvolvimento um novo sistema, que integrará todos os canais de entrada de manifestações”.

BOVESPA

“O ISE é um índice que tem por premissa “screnning positivo”, ou seja, não há restrição prévia de participação de empresas no processo, desde que atendam o pré-requisito de ser uma das 200 companhias com ações mais líquidas na BM&FBOVESPA. Trata-se de um índice inclusivo, porque acreditamos que sustentabilidade é um tema em constante processo de evolução e devemos envolver todas as empresas na discussão e nos instrumentos oferecidos.

No entanto, o Índice considera e avalia de forma muito criteriosa a Natureza do Produto da empresa que é uma das dimensões do questionário. É nesta dimensão que a empresa precisa fornecer informações detalhadas e documentos comprobatórios sobre seus produtos e serviços.

O impacto de um determinado produto em seus consumidores e na sociedade como um todo é fator determinante na sua avaliação, e por isso a dimensão Natureza do Produto é composta por vários Critérios e Indicadores:

Critério I – Impactos Pessoais do Uso do Produto

Indicador 1: Riscos para o Consumidor ou Terceiros

Critério II – Impactos Difusos do Uso do Produto

Indicador 2: Riscos Difusos

Indicador 3: Observância do Princípio da Precaução

Critério III – Cumprimento Legal

Indicador 4: Informações ao Consumidor

Indicador 5: Sanções Judiciais ou Administrativas

Para integrar a carteira do ISE, a companhia precisa performar satisfatoriamente nas seis dimensões comprovando suas repostas a um questionário extenso e profundo, que considera todas as dimensões da sustentabilidade, e que foi desenvolvido e é avaliado por uma equipe referência no tema nacional e internacionalmente, o GVCes – Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV-SP. As dimensões do ISE são: Geral, Natureza do Produto, Governança Corporativa, Econômico-Financeira, Social, Ambiental e Mudanças Climáticas (criada em 2010, em caráter experimental. De preenchimento obrigatório, mas sem pontuação).

Por questão de confidencialidade, o Conselho do ISE, o GVCes e a BM&FBOVESPA não fazem pronunciamentos particularizados por empresa. É claro que uma empresa que tenha mais gaps ou problemas em uma(s) determinada(s) dimensão(ões) precisa se empenhar mais nas demais, elevando, assim, sua performance como um todo e credenciado-se a compor a carteira. O Conselho do ISE entende que, sendo sustentabilidade um tema em constante evolução, as empresas que compõem a carteira do ISE representam um benchmark do tema no Brasil, porém com itens a melhorar constantemente.

A Embraer é uma empresa listada em Bolsa no Brasil e exterior, cujas ações estão entre as 200 mais líquidas do mercado brasileiro, e de atuação legal no País. Sendo assim, ela está plenamente apta a participar do processo de seleção do ISE. Sugerimos que mais detalhes sobre a composição do portfólio da empresa, bem como a relação de tipo de produto x faturamento, sejam obtidas diretamente com a empresa. Desta forma, acreditamos que será possível traçar um panorama e fazer uma avaliação mais completa sobre o tema”.

Sonia Favaretto
Presidente do Conselho Deliberativo do ISE

SANTANDER

“O Santander informa que respondeu os questionamentos do blog Testando os Limites da Sustentabilidade, que publicou as respostas no dia 11/11/2010. O Banco reforça que considera fundamental o papel das mídias sociais, que contribuem, cada vez mais, com a interação entre as instituições e o público em geral”.

Fonte: Época


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